11 de junho de 2012

A odisséia dos aprendizes da História

Wlamir Silva*
 
A UFSJ formou em 2005 a sua primeira turma de História. E este é um evento grandioso para toda a comunidade universitária. Afinal, a história é a única ciência que conhecemos, pois toda ciência é humana e, por fim, a natureza humana é a História.
Essa jornada iniciou-se há quatro anos, quando aqueles jovens lograram seu espaço nessa Universidade pública. Tróia estava conquistada – e aqui, melhor, não destruída... – e eles confiantes, merecedores de seu butim, certos de encontrar verdades evidentes, definitivas. E a lição primeira dessa nossa Odisséia seria de que as vitórias trazem novos e maiores desafios.

 No retorno à sua Ítaca – pois será a Universidade um regresso a nós mesmos e aos nossos -, enfrentariam a ira de Posêidon, não sem razão filho de Cronos, o Deus do tempo. Em furiosas tempestades, emergiram deuses e semideuses, feiticeiras, ciclopes, canibais e outros prodígios... Como Odisseu, nossos heróis e heroínas visitaram o país dos mortos, do passado. Heróis e heroínas... pois, na nossa Odisséia, as penélopes embarcaram e guerrearam, tecendo seus mantos nos conveses.

Assim, ao invés de translúcidos axiomas, arrostaram novas e cada vez mais intricadas questões: O que é História? Para que serve? Combater o anacronismo ou resignar-se a contemporaneidade? Sua matéria é o indivíduo ou o coletivo? Narrativa ou análise? Economia, política ou cultura? Totalidade ou fragmentação? Ciência ou literatura?
As respostas eram muitas e se abriam a novas indagações. Refletindo a pluralidade e a extrema complexidade daquele tão peculiar conhecimento. Logo aprenderiam que as ambigüidades e imprecisões não estavam neles, mas na complexidade do real. Que a simplicidade era o desejado porto de chegada e não de partida. Quantas sereias e de tão maviosos cantos... 

Amarraram-se bem aos mastros, jovens odisseus?

Descobriram uma Ciência em construção – como definiu um de seus titãs, o historiador Pierre Villar – e de aspecto tão labiríntico que angustiante, apaixonante e inconclusa. Ciência em que convizinham o necessário e o contingente, as determinações e o imprevisível, e, há que destacar, a dimensão propriamente humana – histórica – da liberdade e da incerteza.
Entontecidos, nossos heróis buscaram seu Norte naqueles que, talvez, se assemelhassem a deuses e semideuses. Deuses dos antigos gregos, sujeitos à ira, à inveja, à preguiça, à luxúria e outros vícios humanos, bem explicado. Despercebiam-se, no lado da marinhagem e no calor das pelejas, que seus mestres estavam ali, ao lado, marinheiros e guerreiros um pouco mais gastos, também aprendizes do ofício, na mesma nau da História.

Viam, perplexos, que nós, mestres e aprendizes, todos, nos dirigíamos a oráculos vários e que a súplica à Atena, deusa da sabedoria e a única capaz de guiar-nos às nossas ítacas, podem ser de vário feitio, e que Clio, como todas as musas, pode ser misteriosa. Enfim, que, diante desses enigmas somos hoje, e cada vez mais, iguais viajantes.

Hoje, divisando as praias de suas ítacas, esses heróis não duvidam que tornarão, e mais e mais, aos mares revoltos da História. Conhecem mais as sendas do ofício e, vitória maior, aprendem diuturnamente a percorrê-las. Levarão, onde quer que seja, a nossa confiança e a esperança de merecerem melhores homeros.

* Wlamir Silva é professor adjunto do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de São João del-Rei. Mestre e Doutor em História Social e Política pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Foi o primeiro paraninfo do curso.
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