29 de abril de 2009

EFOM: Vídeos interessantes...

Estrada de Ferro Oeste de Minas (EFOM)
Este primeiro vídeo foi feito antes do fim da operação comercial da EFOM em 1976 por David Corbitt. O vídeo foi dividido em 3 partes e mostra o trecho entre São João del-Rei e Antônio Carlos:
Parte 1 


Parte 2 


Parte 3


A Estrada de Ferro Oeste de Minas (EFOM), em 1925 foi assim registrada:


No filme "Os Saltimbancos Trapalhões", a música "Alô Liberdade", a EFOM também marcou presença. Cantora Bebel. Cenas filmadas em Tiradentes (MG), em São João del-Rei (MG) e em uma composição da EFOM, puxada pela locomotiva 41:



Divirtam-se!!!!

As Namoradeiras de Minas

Por: Bruno Nascimento Campos

É curioso como o preconceito contra as minorias aflora de forma tão espontânea, consensual e sutil aqui nas nossas Minas Gerais. Muitos dos que lerem estas palavras poderão chamar-me leviano, ou mesmo de fora da realidade, mas vejo as “namoradeiras” como exemplos cabais disto. Elas são bonecas de gesso ou madeira que ficam normalmente nas janelas de casas como que à espera do “príncipe encantado” que nunca chegará. 
As “namoradeiras” materializam o preconceito contra mulheres e, principalmente, contra as negras e mulatas. Quase ninguém percebe, mas está presente. Alguém já parou para reparar? Essas bonecas são, com raríssimas exceções, mulatas ou negras, com vestidos muito coloridos e decotados. Dentro da tradição mineira, marcada fortemente pelo machismo, as mulheres que ficam nas janelas estão ou a procura de homem ou de notícias fresquinhas para fofocar. 
Por que negras ou mulatas? Isto é reflexo da mais pura forma de racismo, aquele que considera indígenas, negros, mulatos e mulheres como seres inferiores. Desdobramento daquelas teorias eugênicas de fins do século XIX, mas que ainda estão fortemente arraigadas no senso comum de nossa população. 
O Brasil, em especial o Rio de Janeiro, divulga a imagem no exterior como a terra do carnaval e do futebol. No Carnaval é vendido o estereótipo da “mulher brasileira”, a mulata seminua: “produto exótico tipo exportação”. A maior parte dos jogadores de futebol são negros ou mulatos. São as formas mais comuns apregoadas pela mídia em geral de ascendência econômica e social para pobres no Brasil, em especial de negros e mulatos, homens ou mulheres. Mas onde, na realidade, muito poucos conseguem se destacar. Para os homens, basta exercer bem as artes da bola. Para as mulheres a realidade é ainda mais perversa: sua capacidade de ascensão se limita à exibição de suas belas formas, elas não precisam e nem devem mostrar habilidades manuais ou intelectuais. 
Nas Minas Gerais, há a divulgação do patrimônio histórico, da religiosidade e do profano. Mas apesar disso, há também a divulgação de estereótipos femininos. As mineiríssimas “namoradeiras” se tornaram uma atração entre os turistas estrangeiros que as vêem como um cartão de visita brasileiro. Esses turistas levam uma imagem distorcida da mulher mineira na bagagem para seus países de origem: novamente a mulata ou a negra como “produto exótico para exportação”. Aqui elas não estão seminuas na passarela do samba, mas nas janelas. Ingênuas, belas e insinuantes, com os fartos seios bem marcados e decote saliente à espera do homem perfeito. 
As mulheres pobres, em sua maioria negras ou mulatas, seriam, dentro da ótica acima, levadas a se colocar na vitrine para encontrar seu “príncipe encantado”, ao passo que as mais abastadas não precisam estar na janela se insinuando para ninguém. Reparem que as “namoradeiras” raríssimas vezes são brancas.

Pense nisso, nossos preconceitos podem aparecer nas nossas ações mais simples e cotidianas...

Publicado originalmente em O Grande Matosinhos.

A Imigração Italiana e a Oeste de Minas em São João del-Rei

Por: Bruno Nascimento Campos

Este artigo não propõe ser um trabalho específico sobre a imigração italiana em São João del-Rei. Busco aqui relacionar a imigração e a ferrovia, vendo a primeira como um dos impactos da segunda.

Antes mesmo da criação da Oeste de Minas, se vislumbrava a ferrovia como fator de incentivo à vinda de mão-de-obra européia: “Só estas estradas resolvem o problema da colonização, vital para a nossa prosperidade, pela revolução social produzida pela LEI AUREA (sic). Os Europeus, que justamente preferimos para colonização, acostumados á rápida locomoção e ao contacto imediato com os grandes mercados, não se resignam a viver no quase isolamento em que se acha a nossa população, exigem taes meios de transporte pelo grande e certo resultado de dar valor a toda sorte de producção ainda a mais insignificante”( Jornal “O Arauto de Minas”. Ano I, ed. 05, 08/04/1877).

Na construção das primeiras seções da Oeste se utilizou um contingente considerável de imigrantes portugueses, que possivelmente foram trazidos pelo empreiteiro Antônio Rocha. Mas o que se amadurece e que se concretiza, com interesse direto da companhia de estradas de ferro e das autoridades municipais, a partir de 1886 é a da fundação de um núcleo colonial: “S. Ex.ª o Sñr. Conselheiro Rodrigo Silva, digno Ministro da Agricultura, vivamente interessado pelo desenvolvimento das estradas de ferro no Brazil e pelo povoamento de seu uberrimo sólo, iniciou a fundação de um núcleo colonial proximo á cidade de S. João d’El-Rey, comettimento este já em via de execução. Este grande beneficio instantemente reclamado não só por esta Directoria como pelos poderes constituidos do municipio de S. João, muito contribuirá para o progresso daquella zona e creditos da emigração em virtude da uberdade do terreno e amenidade do clima (...) escolhida para a fundação da colonia”(Relatório da EFOM de 1888, p. 06).

O núcleo foi destinado exclusivamente a colonos italianos. Estes e seus descendentes deram uma grande contribuição para o progresso da indústria têxtil em São João del-Rei. A idéia de atrair imigrantes para São João del-Rei se fortaleceu com a possibilidade da chegada da ferrovia na cidade. Não foram somente os imigrantes recusados por fazendeiros da região que formaram o núcleo do Marçal. A intenção das autoridades, da Cia. de estrada de ferro e, posteriormente da Cia. Agrícola era de formar núcleos coloniais, habitando assim as áreas de atuação destas empresas que eram pouco povoadas e, ao mesmo, promovendo o “embranquecimento” e a “europeização” da população local. Seriam oferecidos ao imigrante um lote de terras, a subvenção estatal e a garantia de mercado para seus produtos, a Cia. Agrícola Oeste de Minas compraria a produção destes imigrantes e a ferrovia garantiria o escoamento desta produção. Esta política de implantação de novos núcleos não foi implementada, ficando restrita ao núcleo colonial de São João del-Rei. Temos elementos suficientes para afirmar que a implantação do núcleo colonial na região se concretizou pela existência da ferrovia.

Os colonos italianos instalados em São João del-Rei experimentaram duas fases com situações administrativas distintas dentro do núcleo. A primeira, de 1888 até 1894, é marcada pela falta de interesse do Estado em prestar assistência ao núcleo. Os imigrantes italianos tiveram que buscar alternativas para tirarem o sustento. No periódico “A Pátria Mineira” de 01 de Agosto de 1889 já trouxe notícias sobre o estado de abandono em que se encontravam os colonos e que a demora para o pagamento das habitações em construção “poderia acarretar desanimo aos colonos”.  Nesta fase, o Estado pretendia desalojar os imigrantes do núcleo para construir a capital mineira naquela área. Tal período de abandono levou a várias reclamações dos imigrantes à Câmara Municipal de São João del-Rei. Os relatos de Carlos de Laet sobre a várzea do Marçal retratam esse estado de abandono: “A várzea do Marçal (...) tem ultimamente adqirido fama, e não pequena, por ser um dos pontos indigitados para o assentamento da futura capital do Estado de Minas. (...)Tudo isso (...) está quase desabitado. Apenas vinte fogos contaram os engenheiros em área de tamahas dimensões! Raros colonos cultivam algumas hortaliças ou entregam-se à destruição do mato para fazer lenha”.

A segunda fase começa a partir de 1894, quando se define o local para se assentar a nova capital, e vai até a emancipação do núcleo em 1900. Nesta fase o Estado investiu e fiscalizou  os núcleos coloniais. O núcleo são-joanense passou a contar com o administrador nomeado pelo município, neste interregno ocorreu a maior prosperidade do núcleo. Várias casas, pontes e estradas foram construídas. A produção agropecuária aumentou e a indústria de olaria expandiu a produção de tijolos e telhas. Com as melhorias, o núcleo conseguiu a emancipação, passando a se manter sem a tutela do Estado, e foi integrado ao município de São João del-Rei.

Em São João del-Rei, alguns dos imigrantes italianos e seus descendentes se integraram à sociedade são-joanense e participaram da atividade comercial e industrial da cidade. Alguns imigrantes, com o apoio da Câmara Municipal, deixaram a lavoura e partiram para a atividade comercial na cidade. Outros imigrantes ou descendentes  tornaram-se operários na indústria têxtil.

A imigração italiana em São João del-Rei possibilitou o aumento da população, influenciou a diversificação do comércio da cidade, os imigrantes forneceram produtos de olaria para construção de novas edificações, aumentaram a oferta de produtos agropecuários na região e forneceram mão-de-obra para o desenvolvimento da indústria têxtil.

Favorecendo o aumento do contato entre a população do núcleo com a cidade e, além do contato, a integração do núcleo à mesma, foi inaugurado em 21 de abril de 1910, o ramal ferroviário da E.F. Oeste de Minas ligando São João del-Rei a Águas Santas. O ramal ferroviário de 11,805 km partia da estação Chagas Dória, em Matosinhos, atravessava o rio das Mortes, cortava a colônia do Marçal e ia até o balneário de Águas Santas. Este ramal melhorou as comunicações e agilizou o fluxo de mercadorias e passageiros do núcleo colonial ao núcleo urbano de São João del-Rei.

Bibliografia:

AGOSTINI, Alzenira da Silva. O Impacto da Ferrovia na São João del-Rei Oitocentista. Monografia do curso de Pós-gaduação em História de Minas século XIX na FUNREI, 1996.

CINTRA, Sebastião de Oliveira. Efemérides de São João del-Rei. 2 volumes, 2ª ed.,Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1982.

GAIO SOBRINHO, Antônio. História do Comércio em São João del-Rei. São João del-Rei-MG: Edição do autor, 1997.

GRAÇA FILHO, Afonso de Alencastro. A Princesa do Oeste e o Mito da Decadência de Minas Gerais São João del-Rei (1831-1888).

MARCELINO, Luiz Cláudio. Imigrantes Italianos: uma Experiência de Vida no Núcleo Colonial Marçal e José Theodoro. Trabalho apresentado na disciplina “Geografia Aplicada A” do Curso de Geografia da UFMG, 2003.

LAET, Carlos de. Em Minas. São Paulo: Globo, 2ª ed., 1993.

VIEGAS, Augusto. Notícia de São João del-Rei. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 3ª ed., 1969.

Publicado originalmente em O Grande Matosinhos.

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